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"A História de Tommy"

Tommy era um tipo bem sucedido até que um acidente de moto o deixou inapto para a sua profissão de pianista. Da mão direita só lhe sobrou um dedo intacto, o maior de todos, os restantes tiveram que lhe ser amputados completa ou parcialmente.
Teve um despertar tardio para a música por desconhecer que tinha um talento inato. Todos foram unânimes em considerá-lo um fora-de-série. Isso deixava-o tanto lisonjeado como incrédulo. Com o passar do tempo começou a acreditar no que lhe diziam e a sentir a responsabilidade de ser diferente de todos os outros pianistas. Não era necessáriamente melhor nem ele se considerava como tal pois limitava-se a usar técnicas diferentes, embora tivesse consciência de que obtinha melhores resultados do que os colegas. Esforçou-se para continuar a agradar aos outros - o segredo para a sua própria satisfação - e dessa forma conseguiu ter uma ascenção fulgurante, inerente ao justo reconhecimento que deram ao seu trabalho. Isso agradava-lhe porque podia tocar para cada vez mais pessoas, mas não era esse o seu objectivo. Na verdade, escolheu como seu objectivo ultrapassar a estúpida e inexplicável timidez que o obrigava a olhar o chão e a estugar o passo na rua. Sem razão plausível, evitava contactos pessoais, mas quando os havia, limitava ao essencial as palavras que trocava com os outros. Não havia qualquer motivo para isso, pelo menos concreto, e ele sabia-o. Justificava a si próprio o seu comportamento com falta de auto-confiança e apesar de ter reflectido demoradamente sobre o assunto, não conseguia detectar de onde era originado.
Foi no piano que Tommy encontrou uma via para resolver o seu problema. Aquando do acidente, Tommy tinha amadurecido e encontrava-se pleno de amor-próprio, seguro de ser uma pessoa agradável aos olhos dos outros e, consequentemente pela sua lógica, agradável para ele próprio. Nesse dia, daria pela primeira vez um concerto como figura de primeira linha. Talvez tenha sido a excitação do momento que o fazia conduzir a moto completamente absorto nos seus pensamentos. O dia, apesar de ser Inverno, era de céu azul e Sol morno, por isso preferiu deixar as luvas em casa. Bateu contra a lateral de um carro num cruzamento do qual desrespeitou o Stop e foi projectado num longuíssimo mergulho, aterrando sobre as mãos. Por inércia, o seu corpo continuou o impulso e arrastou para baixo de si a mão direita que sob o seu peso se foi desfazendo pela força do atrito com o alcatrão. Nessa mão só um dedo ficou ileso, o médio, provocando espanto nos médicos que o trataram. Teoricamente não seria possível que tal acontecesse, sobretudo devido à maneira como os outros dedos ficaram maltratados, explicaram-lhe. Foi um milagre, isso e o facto de não ter qualquer outro ferimento, arriscaram alguns médicos porventura mais católicos. Mas apesar do milagre, aquela mão nunca mais permitiria que Tommy pudesse tocar piano.
A regressão foi imediata e violenta. Voltou a insegurança, agravada agora por se achar um incapaz. Incapaz até de se matar para assim parar de se subvalorizar. Ficou afectado psicologicamente e não se conformava com a sua nova condição. Durante algum tempo foi comum encontrar Tommy vagueando pela cidade, apontando o dedo que lhe sobrou na mão direita a todas as pessoas com ele se cruzassem. Agora não olhava o chão mas sim directamente para os olhos dos outros procurando a sua compreensão. Não os queria ofender, apenas mostrar que ele é que tinha sido ofendido na sua honra e amor-próprio por lhe ter sido retirada a única forma que conhecia para se sentir bem consigo mesmo. Para além disso, ficou com uma mão que o insultava cada vez que a olhava. O pianista brilhante, antes admirado e reverenciado, passava agora a ser visto como mais um louco e a ser chamado de Tommy One Finger.
Quando chegou aos limites da subsistência, Tommy procurou um trabalho. Já passava fome quando viu colado na montra de uns armazéns comerciais um anúncio que pedia um ascensorista. O gerente, um galhofeiro apreciador de humor negro, achou piada à sua mão e deu-lhe o emprego na condição de ser aquele o único dedo que ele deveria utilizar no cumprimento da sua função. Agora, em vez de apontar o dedo às pessoas, Tommy usava-o para carregar no botão que deslocaria o elevador para o andar por elas pretendido. Sem o saber, o gerente prestava-lhe uma grande ajuda obrigando-o a utilizar aquela mão. Mas não só: Tommy precisava de assinar o contrato de trabalho e por ser dextro agora não tinha como. Pediu ao gerente para só o fazer quando conseguisse voltar a escrever. A partir desse dia todo o tempo que tinha livre usava-o para aprender a escrever com a mão esquerda, tendo demorado apenas um mês a fazê-lo. Ao descobrir outros usos para as suas mãos, Tommy começou a aceitar melhor o que lhe tinha acontecido e a recuperar a sua auto-estima. Não se contentou e treinou também desenhando e pintando. Observava atentamente as pessoas que entravam no seu elevador e chegado a casa traçava-lhes os rostos, as figuras, as roupas que tinham vestidas. Mais tarde, quando achou que já o conseguia fazer bem, passou a usar a sua imaginação nos desenhos que fazia. Gostava especialmente de desenhar roupa, combinando sobretudo as suas três cores preferidas - o vermelho, o azul e o branco - em padrões variados.
Um dia em que se sentia mais confiante revelou ao gerente, com quem entretanto tinha feito amizade, qual era o seu hobby. Este insistiu com ele para conhecer os seus desenhos e quando Tommy no dia seguinte os trouxe, o gerente ficou tão bem impressionado que correu a mostrá-los ao dono dos armazéns, um abastado industrial na área têxtil. Entusiasmado com a enorme criatividade do seu ascensorista, o industrial logo lhe fez chegar uma proposta: a criação de uma linha de vestuário com marca própria tendo por base os seus esboços. Tommy recordou-se de como se sentia antes do acidente e sem hesitar, concordou. Mas com o sucesso de novo como possibilidade, sentiu que tinha que fazer uma exigência. Queria ser ele a escolher o nome a dar à marca e qual o símbolo que esta teria. De outra forma o que lhe estava a acontecer seria impossível, por isso queria homenagear a sua mão direita: a marca seria Tommy One Finger, o símbolo um dedo médio bem esticado.

Publicado por Duarte / às 05:42 14.12.03 / Link / Comentários (2)
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